Páginas

23.6.08

Receita para fazer um anjo

... ela me chegou como quem conta um segredo, o dedo indicador em direção aos lábios finos e quase sem cor, como sempre foi, “acho que estou grávida!”, meu coração sobressaltou. Quase não acreditei na notícia que iria, como de fato aconteceu, mudar toda a minha existência. No dia seguinte logo cedo uma ligação confirmando a suspeita do dia anterior. “O exame deu positivo”.
Lágrimas de felicidades, pulos de euforia, buquês de flores e a certeza de que o nosso sangue iria continuar neste mundo por pelo menos mais uma geração. Os contatos freqüentes passaram a ser diários. As mudanças no corpo, no humor e no comportamento se faziam presentes, a partir daquele momento ela já não seria mais a mesma. Uma pessoa melhor? Talvez. O certo é que seria uma pessoa diferente.
Os dois primeiros meses foram tranqüilos, mas logo em seguida seu corpo mostrou que segurar o bebê não seria uma tarefa muito fácil. Sangramentos, algumas internações, muitos sustos. Mas sempre ficava tudo bem. Acreditou-se por muito tempo que seria uma menina, mais uma entre tantas. Mas não era. Quem estava por vir era um guri. Um menino com nome, e cara, de anjo. Finalmente um homem na família Sampaio. Já não era sem tempo, progesterona o tempo inteiro enjoa.
Todos os dias vinham notícias dele contando as suas “aprontações” ainda dentro da barriga, imagine só! Imaginávamos como seria quando ele estivesse entre a gente... E a espoleta resolveu nascer antes do tempo. Dia 23 de junho.
Decidiu que queria ser canceriano e não virginiano como estava previsto. Nasceu Gabriel! Dias difíceis se sucederam. As chances de sobrevivência eram mínimas. Mas ele lutou como já estava acostumado. E foram grandes batalhas. Batalha dele para sobreviver. Batalha de quem estava de fora. E o pensamento não saía daquele espaço com pouco mais de um m².
E assim foi por setenta e cinco dias. Altos e baixos. Altos e baixos. Baixos e baixos... E ele, enfim, cumpriu a sua missão. Virou um anjo de verdade!

Nenhum comentário: